Prática de Referência · FACTS

Alimentação, memória e pensamento crítico na escola

Uma eletiva desenvolvida em uma escola pública, do 6º ao 9º ano, no 2º semestre de 2025.

Construída em parceria entre professoras de Ciências, Biologia e Língua Portuguesa e pesquisadores da universidade.

micromesomacroas três escalas da complexidade
“minha história começa
na panela da memória”
Conheça a prática

O que é uma prática de referência

Uma prática de referência não é um modelo a copiar: é uma experiência que ajuda a pensar caminhos e decisões didáticas em contextos reais. Esta partiu de um problema emergente, a alimentação, e da memória afetiva dos estudantes para chegar à análise crítica da sociedade.

Três referenciais sustentam a prática

01.

Pensamento crítico

Boas perguntas, situações investigativas e argumentação: desenvolver o posicionamento diante da realidade, não a memorização de respostas prontas.

02.

Abordagem CTS

Ciência–Tecnologia–Sociedade: as escolhas individuais estão inseridas em contextos sociais, econômicos e culturais mais amplos.

03.

Paradigma da complexidade

Ler o fenômeno em três escalas articuladas (micro, meso e macro) em vez de fragmentá-lo em conteúdos isolados.

A ferramenta

FACTS (Ferramenta Avaliativa CTS)

A FACTS organiza-se em eixos que permitem avaliar e também produzir aulas, materiais e atividades voltados a uma Educação Científica Crítica. Cada passo desta prática mobiliza critérios de um ou mais eixos.

facts.ecc.ufscar.br
  • A

    Processos de Ensino/Aprendizagem

    Como se ensina e se aprende: temas emergentes, investigação, problematização e valorização dos saberes prévios.

  • B

    Visão e Percepção de C&T na Sociedade

    Como ciência e tecnologia aparecem no cotidiano: articular conhecimento científico com decisões, cultura e vida social.

  • C

    Cidadania e Ação

    Identidade, pertencimento e posicionamento: reconhecer os saberes dos estudantes como ponto de partida legítimo.

Situação

Nasceu de uma demanda dos próprios estudantes

  • 6º ao 9º ano · escola pública
  • 2º semestre de 2025
  • Eletiva colaborativa escola + universidade

A prática nasceu de uma demanda dos próprios estudantes, identificada em um grupo focal. A alimentação é um problema emergente atravessado por dimensões sociais, culturais, econômicas e ambientais: ultraprocessados, padrões de corpo na mídia, desigualdade no acesso e impacto ecológico. Foi construída em parceria entre professoras de Ciências, Biologia e Língua Portuguesa, com licenciandos de Estágio e PIBID.


Tensão

O desafio foi romper com a abordagem prescritiva de sempre: classificar nutrientes, decorar a pirâmide alimentar, repetir “evite gorduras e açúcares”. Esses conteúdos importam, mas, descontextualizados, reforçam uma visão normativa de certo e errado que ignora cultura, afeto, condições de vida e impacto ecológico.

De

Transmitir o que é “certo” comer

Para

Problematizar a alimentação como prática complexa


Uma prática lida em três escalas

A alimentação permite articular, e não fragmentar, os níveis da complexidade. É esse movimento que a jornada a seguir percorre.

Micro

O corpo por dentro: papilas, saliva, nutrientes, sistema digestório.

Meso

O eu e a família: memórias, gostos, hábitos, histórias à mesa.

Macro

A sociedade: cultura, renda, mídia, acesso, sistemas alimentares.

A ação

O percurso da eletiva

01 / 09

Memórias e afetos

Memórias gustativas

Atividade 1

Objetivo

Conhecer os saberes, experiências e percepções dos estudantes sobre alimentação.

A aula abre com a leitura do texto “Comida de mãe” e uma atividade diagnóstica. Em seguida, os estudantes escrevem a narrativa “Minha história começa na panela da memória”: comida e afeto, vínculos familiares e conflitos que passam despercebidos nas aulas tradicionais.

Eixo AEixo C

As histórias dos estudantes viram ponto de partida legítimo: valorização dos saberes e construção de identidade (eixo C) sobre um tema emergente (eixo A).

Atividade 1

Depois de ler “Comida de mãe”, recorde suas memórias gustativas e escreva sobre os momentos em que sentiu prazer (ou não) ao se alimentar em família.

  1. 01Cite alimentos que você adora e outros de que não gosta nem um pouco.
  2. 02Liste o que você consome no dia a dia:
  3. 03Conte uma curiosidade que você tem sobre ALIMENTO.
Café da manhã
Almoço
Jantar

De volta à ferramenta

A prática vista pelos eixos da FACTS

Escolha um eixo para ver seus critérios e em quais passos da eletiva ele aparece.

Critérios do eixo

Como se ensina e se aprende: temas emergentes, investigação, problematização e valorização dos saberes prévios.

  • Escolha de um tema emergente conectado à realidade
  • Estratégias que incentivam a investigação
  • Problematização em vez de transmissão

Passos que mobilizam este eixo

01Memórias gustativas02Entrevista com a família03O experimento do paladar

3 de 9 passos

Na prática, a teoria se concretiza

Conhecer sobre alimentação saudável não se traduz automaticamente em escolhas saudáveis: gosto, hábito e contexto social continuam pesando.

O que ficou

  • 1.

    Partir da experiência e do afeto fez o conhecimento científico fazer sentido: do “eu” (meso) à sociedade (macro) e ao corpo (micro).

  • 2.

    Temas do cotidiano, lidos pela complexidade e em diálogo com a CTS, são potentes organizadores do ensino de Ciências.

  • 3.

    O pensamento crítico exige intencionalidade: boas perguntas, situações investigativas e valorização da argumentação.

Desafios honestos

  • Baixo engajamento em atividades fora da escola
  • Dificuldade de envolver as famílias
  • Pouco tempo de planejamento, com ajustes constantes
  • Ritmos diferentes entre as turmas
O que acontece quando estruturamos nossas aulas não em torno de conteúdos, mas de perguntas que desafiam os estudantes a pensar, investigar e se posicionar sobre a realidade em que vivem?
Provocação final

Fonte

Caderno de Formação FACTS: “Construindo práticas de referências: entre saberes da educação científica crítica”

Organização

  • Denise de Freitas
  • Mariana dos Santos
  • Alessandra Miguel Kapp

Instituição

Universidade Federal de São Carlos · São Carlos, 2026

Apoio

FAPESP (2024/09052-8) e CNPq

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